Por Mariza Tavares — Rio de Janeiro
Lucia Hippolito, cientista política e voz conhecida do rádio carioca, faleceu em 21 de junho de 2023. Nos últimos meses ela vinha lidando com o avanço de um câncer que, segundo exames, se espalhou para a coluna, o abdômen e os pulmões.
No final de maio, Lucia enviou mensagens lembrando que já fazia meses desde nosso último encontro — a visita anterior havia sido em dezembro de 2022 — e manteve o humor típico em gravações nas quais brincava estar sempre disponível para visitas.
Sua trajetória mudou de forma radical em 2012. No auge da carreira, enquanto apresentava o programa CBN Rio, ela perdeu totalmente os movimentos durante uma viagem de férias a Paris, na véspera de retornar ao Brasil. Foi diagnosticada com uma forma grave da Síndrome de Guillain-Barré, uma doença autoimune que compromete os músculos. Ficou internada por três meses, passou 48 dias intubada e voltou ao país já dependente de cadeira de rodas.
Em setembro de 2022, Lucia recebeu o diagnóstico de câncer do colo do útero. Submeteu-se a uma histerectomia total, com retirada dos ovários; o tumor era de 4 cm e a recuperação inicial foi considerada satisfatória. Entretanto, no meio de maio de 2023 ela começou a sentir dores intensas na coluna e no abdômen. Exames de imagem — ressonância magnética da coluna e tomografia de tórax e abdome — confirmaram a presença de metástases.
Ela relatou aos familiares e amigas que a doença havia se espalhado pela coluna, pelo abdômen e pelos pulmões, e recebeu estimativas médicas de sobrevida entre três e seis meses. Os médicos chegaram a avaliar imunoterapia, mas Lucia deixou claro que não aceitaria tratamentos que implicassem sair da cama ou sofrer dor.
Diante da gravidade do quadro, a jornalista organizou seus documentos e registrou diretivas antecipadas de vontade, em que detalhou quais procedimentos desejava ou rejeitava caso ficasse incapacitada. No testamento, pediu que suas cinzas fossem lançadas na Place des Vosges, em Paris — cidade que visitava duas vezes por ano — e que esse desejo fosse cumprido por sua irmã, Regina.
Ao recordar a vida, Lucia ressaltou que teve uma trajetória plena e cheia de realizações; lembrou do casamento de 51 anos com Edgar (Flexa Ribeiro) e afirmou não se arrepender da maioria das escolhas, lamentando apenas não ter conhecido o Egito e o Museu Hermitage, em São Petersburgo.
Quem convivia com ela conta que, após longos períodos de depressão decorrentes das sequelas da doença, Lucia alcançou uma serenidade duradoura. Apaixonada por séries, continuou a acompanhar política e a trocar impressões sobre o cenário público. Em uma das últimas visitas que fizemos, brindamos com um espumante espanhol.
Ela havia pedido que sua situação fosse comunicada às pessoas mais próximas antes que um texto sobre o assunto fosse publicado; não houve tempo. Internada no sábado anterior a esta data, Lucia morreu nesta quarta-feira, deixando familiares, amigas e colegas consternados pela perda de uma voz crítica e de grande inteligência.
O velório, informações sobre cerimônia e detalhes sobre o cumprimento de seus últimos pedidos serão divulgados pela família quando definidos.
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