Por Mariza Tavares — Rio de Janeiro
(atualizado em 06/07/2023)
Quando falamos de idade, normalmente pensamos no número que acompanha o calendário: a idade cronológica. No corpo humano, porém, nem todos os tecidos envelhecem na mesma velocidade. Especialistas alertam, por exemplo, que os ovários podem apresentar características típicas de órgãos ‘geriátricos’ já na casa dos 30 anos — uma discrepância que contrasta com a aparência ou funcionamento preservado de outras partes do organismo.
Uma comparação recorrente é a do automóvel: a lataria pode permanecer em bom estado por muito tempo enquanto componentes internos se desgastam mais rápido. No organismo acontece algo semelhante: pele, músculo, fígado, cérebro e órgãos reprodutores podem seguir trajetórias de envelhecimento diferentes, dependendo de fatores genéticos, ambientais e do histórico de saúde.
Grande parte dos avanços na compreensão desses padrões veio dos chamados "relógios epigenéticos". Um dos pioneiros nesse campo foi o pesquisador Steve Horvath, da UCLA, que em 2013 descreveu uma metodologia capaz de estimar a idade biológica com base em alterações químicas no DNA — em especial marcas de metilação que se acumulam ao longo do tempo.
Biomarcadores epigenéticos permitem identificar quando a idade biológica de células ou tecidos está excedendo a idade cronológica, revelando um envelhecimento desigual entre órgãos do mesmo indivíduo.
Pesquisas mais recentes têm mostrado que o desgaste acelerado de um sistema pode repercutir em outros. O neurocientista Andrew Zalesky, da Universidade de Melbourne, criador do relógio epigenético DunedinPace, publicou um estudo na revista Nature Medicine indicando que o envelhecimento de um sistema (por exemplo, o respiratório) pode influenciar o funcionamento do coração, e que alterações cardíacas por sua vez afetam o cérebro. Segundo o trabalho, cada ano a mais de envelhecimento biológico do coração corresponde a um acréscimo médio de 27 dias na idade biológica do cérebro.
Esse tipo de descoberta tem motivado a ideia de tratar, no futuro, órgãos ou sistemas que mostram desgaste precoce como alvos específicos — com o objetivo de frear danos locais e as consequências sistêmicas que deles derivam.
Para entender os mecanismos moleculares do envelhecimento, cientistas também recorrem a modelos animais. A drosófila (mosca-da-fruta) é uma parceira frequente: cerca de 75% dos genes relacionados a doenças humanas têm equivalente na espécie. Em um estudo publicado na revista Science, um consórcio de pesquisadores criou um atlas do envelhecimento que mapeou 163 tipos celulares da drosófila, encontrando padrões distintos — células do cérebro envelhecem mais lentamente, enquanto células musculares e do fígado (no inseto) se deterioram mais rapidamente.
Essas investigações combinam dados moleculares, epigenéticos e de função orgânica para construir um retrato mais detalhado do envelhecimento humano. Na prática clínica futura, relógios biológicos e mapas celulares poderão ajudar a identificar precocemente órgãos com maior risco de falha, orientar intervenções preventivas e tornar tratamentos mais precisos segundo o perfil real de "idade" de cada tecido.
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