Share

Negligência e racismo: desigualdades comprometem a velhice negra e aumentam risco de Alzheimer

Negligência e racismo: desigualdades comprometem a velhice negra e aumentam risco de Alzheimer

Por Mariza Tavares — Rio de Janeiro | 15/06/2023

As diferenças sociais produzem trajetórias de envelhecimento distintas e a data de 15 de junho — Dia Mundial de Conscientização sobre a Violência contra a Pessoa Idosa — é um momento para discutir como a falta de cuidado e o racismo atuam como formas de violência que comprometem a velhice da população negra.

Uma pesquisa apresentada em 2021 pelo epidemiologista Roudom Ferreira Moura (USP) analisou a situação dos idosos na cidade de São Paulo e encontrou que pretos e pardos vivem em condições piores de renda, escolaridade, hipertensão e acesso a serviços privados de saúde do que brancos. Na autoavaliação de saúde, 47,2% dos pretos e 45,5% dos pardos classificaram seu estado como regular, ruim ou muito ruim — contra 33% entre os brancos.

Dados coletados ao longo de 2022 e publicados em reportagem da Associated Press ilustram que disparidades começam cedo e atravessam a vida. Entre os achados citados:

  • Em 2021, 14,8% dos bebês negros nasceram prematuramente, taxa superior à de qualquer outro grupo étnico referido.
  • 18% dos jovens negros relatam exposição frequente a traumas raciais; metade deles apresenta sintomas de depressão de moderados a severos.
  • Entre americanos com 65 anos ou mais, 14% dos negros têm diagnóstico de Alzheimer, contra 10% dos brancos; a projeção é de que os casos aumentem cerca de quatro vezes até 2060.
  • Estima-se que 75% dos afrodescendentes nos EUA corram risco de desenvolver hipertensão até os 55 anos.

O impacto desses fatores ao longo da vida não é apenas estatístico: há também um legado de práticas médicas e crenças racistas que prejudicaram o cuidado. Um exemplo histórico frequentemente citado é o do cirurgião James Marion Sims, do século XIX, que realizou cirurgias em mulheres escravizadas sem anestesia, o que alimentou, ao longo do tempo, a falsa ideia de que pessoas negras toleram melhor a dor — uma crença que ainda influencia decisões clínicas e o tratamento recebido.

Uma análise publicada com base em dados nacionais dos Estados Unidos e associada à Tulane University, veiculada em revista científica, concluiu que pessoas negras têm risco 59% maior de morte prematura do que brancas. Os autores atribuíram a disparidade a oito determinantes sociais da saúde (SDOH): renda, emprego, segurança alimentar, escolaridade, acesso à saúde, qualidade do seguro de saúde, propriedade da moradia e estado civil. Quando esses determinantes adversos foram neutralizados nas análises, a diferença de mortalidade prematura entre negros e brancos desapareceu.

“Ter apenas um determinante social desfavorável dobra as chances de uma pessoa ter morte prematura. Com seis ou mais, o risco é multiplicado por oito.”

“Não há diferença entre a morte prematura de brancos e negros depois de excluirmos os determinantes. Simplesmente desapareceu”, disse Josh Bundy, epidemiologista e autor principal do estudo, ressaltando que esses fatores devem ser o foco para eliminar as disparidades em saúde.

O conjunto de evidências indica que a negligência institucional e social — traduzida em pobreza, menor escolaridade, piores condições de moradia, barreiras de acesso e vieses no atendimento — funciona como violência estrutural ao longo da vida e compromete a qualidade do envelhecimento entre pessoas negras, incluindo maior prevalência de demência e outras doenças crônicas.

Reduzir essas desigualdades, portanto, é também uma estratégia de prevenção: agir sobre os determinantes sociais da saúde é apontado pelos pesquisadores como caminho essencial para diminuir mortalidade prematura e combater a prevalência de doenças que afetam de forma desproporcional a população negra.

Leia também: Como evitar sabotar seu ‘eu’ do futuro: lições do professor Hal Hershfield

via G1 SAUDE E CIENCIA

Sobre o autor

Deixe um comentário