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Sobreviventes infantis de câncer têm risco ampliado de transtornos psicológicos, mostram estudos

Sobreviventes infantis de câncer têm risco ampliado de transtornos psicológicos, mostram estudos

Por Mariza Tavares — Rio de Janeiro | 04/07/2023

A cada ano, cerca de 300 mil crianças e adolescentes — na faixa etária entre zero e 19 anos — recebem diagnóstico de câncer. Os tipos mais frequentes nessa população são leucemias, linfomas e tumores do sistema nervoso central. Em países de maior renda, os avanços no tratamento elevaram a taxa de sobrevida: mais de 80% desses pacientes vivem cinco anos ou mais após o diagnóstico, crescimento significativo frente aos 58% registrados na década de 1970. No Brasil, a média de cura chega a aproximadamente 65%, com variações regionais.

Com a melhoria dos prognósticos, cresceu também a atenção para as consequências a longo prazo enfrentadas pelos sobreviventes. Estudos indicam que, além das sequelas físicas, crianças e adolescentes que vencem o câncer têm maior probabilidade de desenvolver transtornos psicológicos durante a vida.

“Esses jovens pacientes lidam com um enorme volume de tristeza. Não se trata apenas do peso de ter a vida abreviada, porque muitos sobrevivem, mas de uma sensação de luto sobre como suas vidas seriam sem o câncer. É um luto relativo a limitações físicas, à impossibilidade de se engajar em determinadas atividades ou esportes, e até de seguir uma carreira.”

— Jeanelle Folbrecht, psicóloga e diretora de programa para adolescentes no centro médico City of Hope, Los Angeles

Uma meta-análise publicada na revista científica JAMA Pediatrics, que compilou 52 estudos clínicos com cerca de 20 mil participantes, quantificou esse impacto. Em comparação com irmãos ou controles sem histórico de câncer, os sobreviventes apresentaram:

  • 57% mais risco de desenvolver depressão;
  • 29% mais risco de ansiedade;
  • 56% maior probabilidade de episódios psicóticos.

O trabalho também observou que ansiedade e depressão foram particularmente frequentes em coortes avaliadas a partir dos 25 e 30 anos, respectivamente, indicando que efeitos psicológicos podem surgir ou persistir ao longo da vida adulta.

No contexto brasileiro, o câncer infantil é a principal causa de óbito por doença entre crianças e a segunda causa de morte na faixa etária (ficando atrás apenas de acidentes). O Instituto Nacional do Câncer (Inca) estima que, no triênio 2023–2025, ocorrerão 7.930 casos entre zero e 19 anos.

Especialistas e profissionais de saúde destacam a importância de atenção integrada às necessidades emocionais desses pacientes: o diagnóstico e o próprio tratamento tendem a ser traumatizantes em qualquer idade, mas parecem impactar de forma mais profunda a vivência de crianças e adolescentes. Isso reforça a necessidade de acompanhamento psicológico contínuo, avaliação de riscos psíquicos durante o seguimento oncológico e articulação entre equipes pediátricas, de saúde mental e serviços de transição para a vida adulta.

Famílias e cuidadores são orientados a observar sinais persistentes de tristeza, isolamento, mudanças no sono ou apetite, problemas escolares ou comportamentais e buscar avaliação profissional quando tais sintomas aparecem ou não retrocedem. O acompanhamento multidisciplinar é apontado como fator-chave para melhorar qualidade de vida e reduzir o impacto a longo prazo.

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via G1 SAUDE E CIENCIA

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