Um estudo conduzido por pesquisadores da Washington University School of Medicine em St. Louis encontrou diferenças claras na composição das bactérias intestinais de pessoas que estão na fase pré-sintomática da Doença de Alzheimer, em comparação com indivíduos da mesma faixa etária sem alterações cerebrais. A pesquisa foi publicada em meados de junho de 2023 na revista Science Translational Medicine.
Gautam Dantas, professor de medicina genômica e coautor do trabalho, afirmou que a associação entre intestino e cérebro pode ter valor diagnóstico e terapêutico: as mudanças na microbiota podem refletir alterações cerebrais ou, alternativamente, contribuir para o desenvolvimento da doença — hipótese que abre a possibilidade de intervenções com probióticos ou transplante fecal para alterar o curso do Alzheimer.
Os cientistas acompanharam 164 voluntários que forneceram amostras de fezes, sangue e líquido cefalorraquidiano (líquor). Além disso, os participantes registraram a alimentação em diário e foram submetidos a exames de imagem — ressonância magnética e PET‑CT neurológica — para avaliar sinais biológicos associados ao Alzheimer.
Das 164 pessoas, 49 não apresentavam sintomas cognitivos, mas os exames indicaram que já se encontravam no estágio inicial da doença. A comparação entre os dois grupos mostrou diferenças nítidas na composição da microbiota intestinal.
Os autores lembram que alterações na microbiota já tinham sido observadas em pacientes com Alzheimer sintomático, mas este estudo avança ao detectar diferenças já na fase pré-sintomática — período que pode durar até duas décadas, durante o qual há acúmulo progressivo de placas de proteína beta‑amiloide sem declínio cognitivo evidente.
Segundo os pesquisadores, a identificação de um padrão bacteriano associado aos primeiros sinais biológicos da doença pode permitir a criação de marcadores não invasivos para risco de Alzheimer e abrir caminho para intervenções preventivas. No entanto, eles ressaltam que não está definido se as alterações intestinais são causa ou consequência das mudanças cerebrais, e que são necessários estudos adicionais para testar intervenções e confirmar a utilidade clínica desses achados.
Em contexto relacionado, outra pesquisa recente, publicada na revista Neurology, avaliou a relação entre doenças inflamatórias intestinais (como Doença de Crohn e colite ulcerativa) e risco de acidente vascular cerebral. O levantamento incluiu 85 mil pacientes com doença inflamatória intestinal confirmada por biópsia, emparelhados com cinco controles para cada caso (total de quase 407 mil indivíduos).
O estudo indicou aumento de 13% no risco de acidente vascular cerebral em até 25 anos após o diagnóstico da doença inflamatória intestinal. No acompanhamento descrito pelo trabalho, com duração média de 12 anos, a incidência de AVC entre pessoas com a doença foi de 32,6 por 10 mil, contra 27,7 por 10 mil entre os controles.
Ambas as pesquisas reforçam o interesse crescente na relação entre intestino e sistema nervoso central, e na possibilidade de que alterações no microbioma intestinal influenciem — ou sinalizem — riscos para doenças neurológicas e vasculares. Especialistas consultados pelos estudos pedem cautela: embora promissoras, as evidências ainda exigem replicação e avaliação de intervenções antes de mudanças na prática clínica.
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