Por Mariza Tavares — Rio de Janeiro
Hal Hershfield, professor de marketing, tomada de decisão comportamental e psicologia na Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA), publicou em junho de 2023 o livro Your Future Self: How to Make Tomorrow Better Today (Seu futuro eu: como tornar o amanhã melhor hoje). Resultado de cerca de dez anos de pesquisa, a obra analisa por que muitas pessoas têm dificuldade de planejar e agir em função de metas de longo prazo — e propõe maneiras concretas de reverter esse padrão.
Segundo Hershfield, um dos mecanismos centrais que explica essa falha é a tendência a perceber nosso eu futuro como uma outra pessoa: distante e, por isso, menos merecedora de atenção imediata. Para ilustrar, ele usa um exemplo cotidiano em que alguém evita ajudar um colega com uma mudança no sábado — comportamento que, explica o autor, é análogo ao descaso que temos com necessidades futuras, como saúde ou poupança.
O pesquisador recomenda exercícios que ajudam a fortalecer a ligação entre o eu presente e o eu futuro. Entre as estratégias apontadas no livro e em palestra on-line (disponível em https://vimeo.com/836575975?share=copy), estão:
- Visualizar várias versões do próprio eu ao longo do tempo — por exemplo, daqui a 5, 10 e 30 anos — para tornar mais palpáveis as consequências das escolhas atuais;
- Construir quadros detalhados de objetivos em áreas específicas, como saúde, relacionamentos ou aposentadoria, e recorrer a essas imagens mentais quando a tentação de abandonar a meta surgir;
- Usar incentivos externos que aumentem o custo de falhar: por exemplo, combinar com uma pessoa de confiança que, caso a meta não seja cumprida, ela faça uma doação com seu cartão de crédito (ou, no Brasil, via Pix) a uma causa com a qual você discorda; a chamada intervenção punitiva funciona como mecanismo de responsabilização;
- Escrever cartas para o eu do futuro e também pedir que o eu futuro idealizado escreva de volta para o eu presente, reforçando o vínculo e a urgência das mudanças necessárias.
Hershfield observa que motivos para cuidar do eu futuro existem também na esfera afetiva: muitas pessoas se dispõem a sacrifícios por pais, filhos ou amigos, mas relutam em fazê‑lo por si mesmas. Ele lembra que essa resistência pode, paradoxalmente, prejudicar justamente aqueles por quem estaríamos dispostos a abrir mão — por exemplo, ao negligenciar a própria saúde e depois não conseguir apoiar entes queridos.
O autor sinaliza, ainda, que situações pessoais podem alterar a percepção temporal — no caso dele, a paternidade teria reforçado a inclinação para pensar no longo prazo. Para quem busca consolidar novos hábitos, Hershfield defende combinar práticas de visualização com arranjos sociais e compromissos explícitos que tornem as consequências de escolhas presentes mais concretas para o eu futuro.
O livro e a palestra reúnem evidências de estudos comportamentais e oferecem ferramentas aplicáveis a rotinas de autocuidado, finanças pessoais e planejamento de vida, com ênfase em técnicas práticas para aumentar a proximidade psicológica entre as diferentes versões de si mesmo.
Leia também: 12 mitos sobre consumidores maduros que atrapalham estratégias de marketing