Em um encontro realizado em um resort de Tivat, pequena cidade de Montenegro à beira do Mar Adriático, cerca de 780 ativistas do movimento antienvelhecimento debateram a criação de uma entidade política própria para facilitar pesquisas e liberação de medicamentos destinados a deter ou reverter o processo de envelhecimento. A reunião foi retratada em reportagem de Jessica Hamzelou, publicada na revista MIT Technology Review no final de maio de 2023.
O grupo, que contesta a decisão da Organização Mundial da Saúde de não classificar a velhice como uma doença, acredita que normas regulatórias atuais impedem o desenvolvimento e a comercialização mais rápida de intervenções que aumentem a longevidade. Parte dos participantes já vivia há semanas numa comunidade chamada Zuzalu — nome gerado por uma ferramenta de inteligência artificial — onde combinavam palestras e debates com atividades como mergulhos em água fria, cafés comunitários e meditação.
“Queremos ganhar reconhecimento diplomático”, disse Max Unfried, doutorando em uma universidade de Singapura, ao explicar a ambição de transformar a rede em um Estado independente que atraia empresas de biotecnologia.
Outra liderança citada no encontro, Nathan Cheng, ligado à comunidade on-line Longevity Biotech Fellowship, resumiu o impulso moral por trás do movimento: “a morte é moralmente ruim, é preciso fazer algo a respeito”.
Na prática, a proposta prevê que a base da organização seja uma cidade ou território disposto a oferecer incentivos fiscais e a flexibilizar exigências para ensaios clínicos — medidas que, segundo os idealizadores, acelerariam a chegada de novos tratamentos ao público. Especialistas ouvidos pelos participantes apontam, porém, dificuldades legais: nos Estados Unidos, por exemplo, agências federais como o FDA mantêm requisitos que dificilmente seriam dispensados por legislação local, e órgãos equivalentes em outros países, como a Anvisa no Brasil, seguem critérios semelhantes.
Os ativistas tiveram conversas preliminares com políticos de Montenegro, mas manifestaram preferência por Rhode Island, no entorno de Boston, região reconhecida mundialmente por centros de biotecnologia. Como alternativa — diante do fato de que nenhum Estado americano está totalmente livre da legislação federal — uma parte do grupo avalia procurar um país da América Latina disposto a negociar maior autonomia regulatória. O texto também mencionou, de forma anedótica, o município de Xangri-lá, no Rio Grande do Sul, que reúne pouco mais de 15 mil habitantes, como uma sugestão irônica de localidade com nome semelhante à ideia de “Shangri‑la”.
Embora os idealizadores descrevam planos ambiciosos, persiste uma lacuna prática: ninguém apresentou um caminho claro para convencer autoridades regulatórias tradicionais a abrir mão das salvaguardas que regem aprovação de fármacos e a condução de ensaios clínicos. A proposta levanta questões éticas e jurídicas sobre experimentação humana, segurança e equidade no acesso a tratamentos.
Reportagem original sobre o encontro em Montenegro foi assinada por Jessica Hamzelou na MIT Technology Review. Esta matéria foi publicada por Mariza Tavares em 13/06/2023 (atualizada em 13/06/2023).
via GLOGO SAUDE