Por Mariza Tavares — Rio de Janeiro
09/07/2023 06h01 (Atualizado 09/07/2023)
Hal Hershfield, professor da Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA), com atuação em marketing, decisão comportamental e psicologia, publicou em junho de 2023 o livro Your future self: how to make tomorrow better today (Seu futuro eu: como tornar o amanhã melhor hoje). Resultado de cerca de uma década de pesquisas, a obra investiga por que temos dificuldade em planejar a longo prazo e apresenta estratégias práticas para reverter essa tendência, que pode gerar consequências relevantes para saúde, finanças e relacionamentos.
Em palestra on-line disponibilizada em vídeo, Hershfield detalha como fortalecer a ligação entre o presente e versões futuras de nós mesmos — um passo chave para alterar comportamentos impulsivos. O vídeo pode ser assistido aqui.
“Gosto de usar uma imagem do dia a dia para mostrar como nossa mente funciona. Imagine a situação: um colega de trabalho, de quem você não é próximo, pede ajuda para fazer a mudança no próximo sábado. É claro que você tem uma lista de cem coisas mais importantes para resolver e vai arranjar uma boa desculpa para se livrar do chato. O incrível é que agimos da mesma forma com nosso futuro. A tendência é nos imaginarmos como uma outra pessoa, com a qual não temos qualquer proximidade e que, portanto, não é prioridade. Quando alimentamos essa conexão, fica mais fácil tomar decisões melhores”.
Hershfield recomenda exercitar a imaginação em horizontes distintos — por exemplo, pensar em versões de si mesmo daqui a cinco, dez ou 30 anos — para avaliar melhor as consequências das escolhas atuais. Segundo ele, esse exercício vale inclusive para metas de saúde, como manter níveis de colesterol ou controlar a circunferência da cintura. O autor relata que a presença de filhos pequenos o ajudou pessoalmente a focar no longo prazo.
“Estamos prontos para nos sacrificar por várias pessoas: nossos pais, filhos, amigos. Por que é tão difícil nos sacrificarmos por nós mesmos? E o mais interessante é que agir assim acaba impactando negativamente as pessoas que prezamos tanto, porque poderemos não estar em condições de ajudá-las”.
Entre as técnicas propostas estão a “visualização do eu” — escolher uma área (saúde, relacionamentos, aposentadoria), detalhar a versão desejada de si mesmo naquele domínio e recorrer a essa imagem quando houver tentação de fraquejar — e a criação de incentivos externos que reforcem o compromisso.
“Imagine que você belisca alimentos pouco saudáveis toda noite e estabelece que só fará isso uma vez por semana. Chame alguém de confiança, para quem você não mente, para ser seu ‘auditor’. Se reconhecer que não cumpriu a meta, ele vai usar seu cartão de crédito (na versão brasileira, um Pix) para fazer uma doação para uma causa com a qual você, definitivamente, não concorda. Parece estranho, mas é bem eficiente quando adotamos essa intervenção punitiva”.
Outra ferramenta sugerida por Hershfield é escrever — tanto uma carta do eu presente para o eu futuro quanto a mensagem inversa, do eu maduro para o eu atual. Segundo o autor, esses textos ajudam a criar continuidade psicológica e a manter hábitos positivos ao longo do tempo.
Em síntese, o livro e as recomendações do autor visam reduzir o chamado viés de presente — a tendência de privilegiar recompensas imediatas em detrimento de benefícios futuros — por meio de exercícios de conexão com o “futuro eu”, uso de contratos sociais e lembretes concretos que transformem intenções em ações sustentáveis.
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via GLOGO SAUDE