Por Mariza Tavares — Rio de Janeiro
(Atualizado 08/06/2023)
Pesquisas recentes sobre wearables — relógios, sensores e aplicativos que capturam dados de saúde em tempo real — mostram esforço para diversificar amostras, incluindo minorias étnicas, populações de baixa renda e comunidades rurais. No entanto, conforme apontado em trabalho publicado na revista The Lancet Digital Health, pessoas com comprometimento cognitivo e portadores de demência têm sido deixados de fora de muitos desses estudos.
Essa lacuna é preocupante porque tecnologias alimentadas por inteligência artificial têm capacidade de transformar dispositivos em ferramentas clínicas: é possível monitorar alterações comportamentais, identificar risco de quedas, traçar trajetórias cognitivas e funcionais ao longo do tempo e reduzir a sobrecarga dos cuidadores. Para pacientes com demência, dados contínuos coletados por wearables poderiam oferecer sinais precoces de agravamento ou complicações associadas.
Há um estigma persistente de que idosos não conseguem participar de pesquisas com tecnologia por falta de habilidade digital. Dados recentes, porém, indicam que a adesão entre pessoas mais velhas aumentou significativamente após a pandemia, quando o uso de dispositivos conectados se popularizou nessa faixa etária.
As proporções deixam clara a sub-representação: estima-se que o número de pessoas vivendo com algum tipo de demência ultrapassará 150 milhões em 2050. Mesmo assim, estudos amplos sobre wearables apresentam amostras jovens — por exemplo, no Apple Heart Study a média de idade dos participantes foi de 41 anos e apenas 6% tinham mais de 65 anos. A justificativa inicial para a baixa inclusão de idosos foi a alegação de que a sensibilidade do dispositivo para detectar fibrilação atrial caía de forma significativa em indivíduos com mais de 75 anos.
Além da idade, a situação é ainda mais crítica entre residentes de instituições de longa permanência. Uma revisão sistemática publicada em 2022 identificou escassez de pesquisas que testassem sensores ou outras tecnologias baseadas em IA nesse grupo. Entre os desafios citados estão dificuldades práticas, como lembrar de recarregar aparelhos ou acionar botões em horários específicos, e barreiras comportamentais relacionadas ao próprio quadro de perda de memória.
Especialistas defendem que, para ampliar a inclusão de idosos, é necessário projetar soluções adaptadas ao contexto de vida e às limitações cognitivas desses usuários — interfaces mais simples, automação de rotinas de recarga, integração com cuidados profissionais e treinamento de cuidadores e equipes de saúde. Garantir representatividade nas pesquisas é também assegurar que algoritmos de IA sejam treinados com dados diversos e fiáveis, evitando vieses que possam comprometer diagnóstico e acompanhamento clínico.
Sem mudanças no desenho dos estudos e na concepção dos dispositivos, o potencial dos wearables para melhorar a qualidade de vida e o manejo das demências corre o risco de permanecer pouco explorado justamente entre quem mais poderia se beneficiar.
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