Por Mariza Tavares — Rio de Janeiro
Nolen Gertz, professor assistente de filosofia aplicada na Universidade de Twente (Holanda) e autor do livro “Nihilism and Technology”, tem investigado as interseções entre tecnologia e valores humanos à medida que a inteligência artificial se torna mais presente na vida cotidiana. Em entrevistas e textos, Gertz retoma reflexões de Friedrich Nietzsche para alertar que a tecnologia pode assumir, simbólica e socialmente, o papel de uma nova religião.
“Nenhuma tecnologia é neutra. Ela muda a forma como nos relacionamos com o mundo. Influencia nossa percepção, nossa experiência, e muda a ética”.
Para o pesquisador, a promessa de que dispositivos e sistemas baseados em IA vão prolongar a vida e melhorar o bem-estar coloca a tecnologia no centro das esperanças humanas. Ele cita estimativas de mercado que apontam investimentos significativos em dispositivos vestíveis — os wearables — e destaca uma projeção de gastos de 20 bilhões de dólares em 2023 nesse segmento.
Gertz também refere estudo da consultoria PwC que mostra expectativas dos consumidores em relação a esses aparelhos: segundo a pesquisa, 70% das pessoas desejam wearables que as ajudem a viver mais; 60% esperam que a tecnologia auxilie a manter um peso saudável; e 60% aprovam a ideia de fones de ouvido capazes de monitorar o estado de espírito do usuário e selecionar músicas com base nessa análise. Para ele, essas expectativas refletem uma visão do corpo como máquina passível de intervenções tecnológicas contínuas.
“Nietzsche dizia que Deus está morto. Agora, a tecnologia é Deus. A ideia de que a inteligência artificial nos fará viver mais está atrelada a uma projeção de gastos, somente em 2023, de 20 bilhões de dólares em dispositivos como os wearables, que coletam informações sobre a saúde e atividades físicas da pessoa. É como se o corpo fosse uma máquina cujas peças pudessem ser trocadas, como se devesse ser curado tecnologicamente”.
O filósofo é particularmente crítico do transhumanismo — corrente que defende o uso de tecnologias emergentes para ampliar capacidades humanas por meio de medicamentos antienvelhecimento, implantes, intervenções celulares e edição genética. Gertz aponta que, nessa perspectiva, a natureza humana passa a ser vista como um defeito a ser consertado por meios tecnológicos.
“Para o transhumanismo, a natureza é falha, por isso há câncer, envelhecimento, câncer, demência, sofrimento, e a tecnologia é a ferramenta no esforço contínuo contra as falhas. Mas ver a tecnologia como solução para os problemas da vida nos leva a ver a vida como um problema”.
Esses argumentos levantam questões práticas e éticas já debatidas por especialistas: até que ponto delegar decisões médicas ou de bem-estar a algoritmos e dispositivos é aceitável? Como garantir privacidade e segurança dos dados de saúde coletados por wearables? Qual o impacto sobre a desigualdade de acesso a tecnologias que prometem melhorar qualidade e duração da vida? Gertz defende que tais escolhas não podem ser tratadas apenas como avanços técnicos, mas precisam passar por análise ética e debate público.
Embora a tecnologia ofereça oportunidades reais para diagnóstico precoce, monitoramento contínuo e personalização de tratamentos, o pesquisador reforça que é preciso cuidado para não transformar soluções tecnológicas em fins em si mesmos. Segundo ele, reconhecer que ferramentas tecnológicas moldam percepções e valores é o primeiro passo para formular políticas, regulações e práticas clínicas que preservem a autonomia, a dignidade e o bem-estar coletivo.
Especialistas e formuladores de políticas são assim convocados, segundo a visão apresentada por Gertz, a colocar limites e critérios claros para o uso de IA e dispositivos de saúde, equilibrando inovação com princípios éticos e proteção social.
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