No mês anterior à publicação desta reportagem (13/06/2023), cerca de 780 pessoas participaram de um encontro em um resort de luxo em Tivat, cidade montenegrina à beira do Mar Adriático, dedicado à causa do antienvelhecimento. Os participantes, que defendem aumentar drasticamente a expectativa de vida, rejeitam a decisão da Organização Mundial da Saúde de não classificar o envelhecimento como doença.
Grande parte dos presentes já vivia há semanas em uma comunidade experimental chamada Zuzalu — nome gerado pela ferramenta de inteligência artificial ChatGPT — onde o cotidiano combinava palestras científicas com atividades como mergulhos nas águas frias do Adriático, cafés da manhã coletivos e sessões de meditação.
“É uma turma com planos ambiciosos, o que inclui a criação de um Estado independente onde obstáculos regulatórios para pesquisas e medicamentos sejam removidos. E que defende a ideia de que caberia aos cidadãos decidir o quanto se arriscariam como cobaias de tratamentos antienvelhecimento e biohacking.”
Entre as propostas discutidas está a formação de uma entidade política ou território que atraia empresas de biotecnologia com incentivos fiscais e regras menos rígidas para ensaios clínicos. Em termos práticos, a ideia seria estabelecer uma cidade-sede que oferecesse incentivos para acelerar o desenvolvimento e a comercialização de drogas e intervenções que, segundo os simpatizantes, podem retardar ou reverter aspectos do envelhecimento.
Max Unfried, doutorando na chamada Universidade de Singapura que frequenta a comunidade e afirma buscar uma “cura para a velhice”, disse que o objetivo inclui obter reconhecimento diplomático para essa nova organização. Nathan Cheng, à frente da comunidade online Longevity Biotech Fellowship, resumiu o pensamento de muitos participantes: “a morte é moralmente ruim, é preciso fazer algo a respeito”.
“Em termos práticos, a organização teria como base uma cidade que acolhesse empresas de biotecnologia com incentivos fiscais e afrouxasse as regras dos ensaios clínicos, embora ninguém saiba explicar como o FDA, o equivalente à Anvisa, seria convencido de abrir mão das exigências para lançar uma droga nova no mercado.”
Os “zuzalenses” chegaram a manter conversas preliminares com agentes políticos de Montenegro para instalar a comunidade, mas há preferência por locais ligados a centros de pesquisa em biotecnologia. Rhode Island, estado próximo a Boston e reconhecido por sua infraestrutura científica, é citado como opção atraente. Contudo, participantes ressaltam que nenhum ponto dos Estados Unidos estaria livre das leis federais, o que levou parte do grupo a cogitar buscar um país na América Latina onde fosse mais fácil obter autonomia regulatória.
Como curiosidade, a reportagem também lembrou a existência, no Rio Grande do Sul, de um município chamado Xangri-lá com pouco mais de 15 mil habitantes — menção feita em tom de sugestão bem-humorada pelos próprios interlocutores durante as discussões sobre territórios possíveis.
Especialistas em ética e regulação consultados por outros veículos alertam que reduzir exigências de segurança em ensaios clínicos e permitir práticas de experimentação humana sem salvaguardas robustas pode gerar riscos significativos à saúde pública. A proposta desenhada pelos militantes do antienvelhecimento coloca em evidência o choque entre a busca por inovação rápida em biotecnologia e as estruturas regulatórias estabelecidas para proteger pacientes e consumidores.
Publicado em 13/06/2023.
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