Por Mariza Tavares — Rio de Janeiro
Publicado em 20/06/2023; atualizado em 20/06/2023
Em espaços públicos é comum que as pessoas finjam não perceber a presença dos outros — no ponto de ônibus, numa praça ou no metrô, a atenção costuma ficar voltada ao celular. Ao mesmo tempo, autoridades de saúde vêm alertando para o crescimento da solidão como problema de saúde pública: em maio de 2023, o surgeon general dos Estados Unidos, Vivek Murthy, divulgou um documento chamando atenção para a gravidade da crise de isolamento entre os norte‑americanos.
Contra esse cenário, surgiu um movimento prático e visual: bancos pintados com cores vivas e mensagens convidativas, projetados para sinalizar disponibilidade para conversa. A iniciativa foi idealizada por Allison Owen‑Jones em Cardiff, no País de Gales, depois que ela viu um idoso sentado sozinho por cerca de 40 minutos em um parque e se perguntou como facilitar uma aproximação sem causar constrangimento.
Da ideia veio o assento com a frase impressa: “Happy to chat bank. Sit here if you don’t mind someone stopping to say hello” — um convite claro para que transeuntes possam sentar e iniciar um diálogo.
Em maio de 2019 Allison começou colando pequenos cartazes com essa mensagem. A proposta rapidamente ganhou apoio de organizações não‑governamentais e ativistas e se expandiu para outras localidades: Canadá, Estados Unidos, Austrália e Suíça estão entre os países que adotaram variações do conceito.
Em algumas culturas o formato foi adaptado com traduções ou nomes locais. Na Polônia, por exemplo, o banco é chamado de “gadulawka” e traz o convite em polonês, hebraico e inglês. No Zimbabwe, os chamados “friendship benches” (bancos da amizade) chegaram a ser incorporados a programas de saúde mental comunitária.
O modelo zimbabuano inclui treinamento de agentes comunitários em técnicas básicas de terapia cognitivo‑comportamental com foco em solução de problemas. Na prática, esses agentes ajudam a pessoa a identificar fatores que geram ansiedade ou depressão e a buscar alternativas concretas, com o objetivo de reduzir a chamada “kufungisisa” — expressão local que significa “pensar demais”. Esse mesmo formato foi replicado em países como Malawi, Quênia e Zanzibar.
Nem sempre essas conversas geram vínculos profundos, mas profissionais e ativistas apontam que a redução da sensação de invisibilidade já representa um ganho relevante para quem se sente isolado. A experiência mostra que intervenções urbanas de baixo custo e baixo impacto social podem facilitar pequenos encontros que aliviam a solidão.
Mesmo antes da pandemia, metade dos adultos relatava ao menos algum grau de isolamento; iniciativas como os bancos “Feliz por conversar” buscam transformar um gesto simples — oferecer lugar e abertura para um cumprimento — em oportunidade de conexão. Torço para que a proposta chegue ao Brasil e inspire ações semelhantes nas cidades brasileiras.