Por Mariza Tavares — Rio de Janeiro | 01/06/2023
Um estudo publicado em 31/05/2023 no Journal of the American Heart Association aponta que cerca de um terço dos adultos com diabetes tipo 2 apresenta sinais de doença cardiovascular sem sintomas clínicos evidentes. A detecção foi feita pela mensuração de duas proteínas no sangue: troponina cardíaca de alta sensibilidade e o peptídeo natriurético N‑terminal pró‑B (NT‑proBNP).
Esses marcadores já são usados na prática clínica para identificar insuficiência cardíaca, mas os pesquisadores destacam que concentrações apenas levemente elevadas podem indicar mudanças na estrutura e no funcionamento do coração antes que surjam sintomas.
Para avaliar a relação entre diabetes e doença cardiovascular “silenciosa”, a equipe analisou amostras de sangue de mais de 10 mil adultos coletadas entre 1999 e 2004. Todos os participantes não tinham histórico de doença cardiovascular quando o estudo começou; havia pessoas com e sem diabetes tipo 2 na coorte.
Os principais achados foram:
- Entre os adultos com diabetes tipo 2, 33,4% apresentaram sinais de doença coronariana detectáveis pelos biomarcadores; no grupo sem diabetes, a prevalência foi de 16,1%.
- Em pacientes diabéticos, níveis elevados de troponina e de NT‑proBNP estiveram associados a maior risco de mortalidade por qualquer causa e por causas cardíacas.
- A prevalência de troponina elevada foi significativamente maior entre pessoas com maior tempo de diagnóstico de diabetes e entre aquelas com controle glicêmico inadequado.
Elizabeth Salvin, professora de epidemiologia da Johns Hopkins e coautora do estudo, afirmou que, mesmo em ausência de infarto ou de diagnóstico prévio de doença cardíaca, pessoas com diabetes tipo 2 apresentam risco aumentado de complicações cardíacas. Segundo ela, embora o foco tradicional seja reduzir o colesterol, o diabetes pode provocar danos aos pequenos vasos do coração por mecanismos independentes do colesterol, o que sugere necessidade de estratégias terapêuticas adicionais para reduzir esse risco.
Os autores ressaltam a importância de maior vigilância cardíaca em pacientes com diabetes tipo 2 e a utilidade potencial do monitoramento de biomarcadores para identificar doenças subclínicas e estratificar risco.
Em contexto relacionado, outro trabalho divulgado em maio de 2023 avaliou o efeito do horário do exercício sobre o controle glicêmico. Esse estudo acompanhou por quatro anos 2.400 participantes que usaram dispositivos de monitoramento de atividade física; já no primeiro ano, aqueles que praticavam exercícios moderados a vigorosos no período da tarde apresentaram a maior redução nos níveis de glicose. O benefício persistiu até o quarto ano, e esse grupo teve maior probabilidade de interromper medicação para diabetes.
Juntas, as pesquisas reforçam a necessidade de abordagem multidimensional no manejo do diabetes tipo 2: além do controle lipídico e glicêmico, o rastreamento de biomarcadores cardíacos e intervenções no estilo de vida — incluindo exercício regular — podem ter papel relevante na prevenção de eventos cardiovasculares.
Leia também: Como parar de beber depois dos 60: 8 erros a evitar e 8 estratégias que ajudam



