Por Mariza Tavares
Rio de Janeiro — Atualizado em 25/06/2023 06h01
Kate Lyra construiu uma trajetória profissional extensa que vai muito além do bordão que a projetou na televisão na década de 1970. Atriz, escritora, roteirista, diretora de cinema, pesquisadora, produtora musical, cantora e letrista — com canções gravadas, entre outros créditos —, ela também participou de programas de humor cujo sucesso popular ficou marcado pela expressão “brasileiro é tão bonzinho”.
O bordão, que já havia sido usado anteriormente pela atriz romena Jacqueline Myrna em tom francês, tornou-se a assinatura da personagem ingênua que, nos esquetes, não percebia as investidas masculinas. Embora hoje esse tipo de quadro possivelmente suscitasse críticas nas redes sociais por seu viés machista, Kate nunca ficou reduzida a esse rótulo: diversificou seu trabalho artístico e engajou-se em frentes culturais e formativas.
Formada pela experiência prática desde jovem, Kate começou como modelo aos 17 anos e também atuava como cantora e bailarina. Seu caminho mudou durante um teste no México, onde o músico Carlos Lyra — 16 anos mais velho — preparava o musical “Pobre menina rica” para a TV local. Eles se casaram em 1969 e, em 1971, retornaram ao Brasil. No país nasceu a filha do casal, a cantora e compositora Kay Lyra. Para simplificar, Katherine Lee Riddell Caughey passou a adotar publicamente o sobrenome Lyra. O casamento durou até 2004.
No dia 3 de julho de 2023, Kate completará 74 anos e segue em atividade. Desde 2007, seu parceiro na vida e em projetos profissionais é Steve Solot, executivo audiovisual com passagem pela Motion Picture Association na América Latina — onde representava grandes estúdios — além de cargos na Netflix e na Rio Film Commission. Coincidentemente, ambos nasceram no Arizona e oficializaram a união em 2017, naquele estado norte-americano.
Juntos, eles lançaram um curso de inglês técnico voltado para profissionais do setor audiovisual, disponível em três níveis: básico, intermediário e avançado. A proposta é capacitar equipes de bastidores — maquiadores, continuístas, eletricistas e técnicos de som — para que tenham melhores oportunidades em coproduções internacionais. Uma versão em espanhol está em desenvolvimento.
No segundo semestre, a dupla organizou a 14ª edição do Latin American Global Film & TV Program, em Los Angeles. O evento reúne participantes de vários países, oferece palestras com especialistas, acesso ao American Film Market (AFM) e sessões de pitch — nas quais Kate ajuda quem não se sente confortável em apresentar projetos em inglês.
Como pesquisadora vinculada ao Centro de Estudos Sociais Aplicados da Universidade Candido Mendes, com foco em estudos musicais, Kate dedicou atenção ao rap e ao funk. Publicou dois artigos acadêmicos, com circulação no Brasil e nos Estados Unidos. Em uma das experiências de campo, ao deixar um baile em comunidade, o carro em que participava foi abordado pela polícia. Segundo ela, a identificação pública do bordão tornou-se um fator curioso: os agentes cochicharam e, ao reconhecê-la, permitiram que seguissem com a pesquisa.
“Devo ser a única pessoa no mundo que conseguiu um papel porque falava abominavelmente o português”, ela brinca ao recordar os primeiros trabalhos.
Sua rotina atual inclui ginástica diária e exames médicos regulares. Sobre alimentação, é pragmática: nesta fase da vida, “já sabemos o que devemos ou não comer”. Entre suas referências pessoais estão uma passagem de Robert Louis Stevenson — “The world is so full of such wonderful things, I think we all should be happy as kings” — e uma fala de Vinicius de Moraes sobre a vida: “não, eu tenho é saudades da vida”, que ela cita como síntese de uma relação de gratidão e curiosidade pelos momentos que a cercam.
“A frase continua me alimentando. Tenho muitas saudades da vida, que dança a nosso redor, e cada momento é precioso”, ela afirma.
Mesmo conhecida por um bordão que atravessou gerações, Kate Lyra mantém perfil ativo como criadora, pesquisadora e incentivadora de formação no audiovisual, ampliando sua atuação para além dos palcos e dos estereótipos que uma vez a tornaram famosa.
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